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  Notícia >> Abordagens terapêuticas na reabilitação do deficiente auditivo.  (10/8/2006)
 
 
Abordagens terapêuticas na reabilitação do deficiente auditivo.

Therapeutical approaches for the rehabilitation of hearing – impaired patients.


Marcia Cristiane de F. Mendes-Civitella

Fonoaudióloga. Doutora em Neurociências e Comportamento pela USP/SP. Professora na área de Audiologia Educacional do Curso de Fonoaudiologia do Centro Universitário São Camilo


RESUMO

Os métodos e equipamentos desenvolvidos para diagnóstico da deficiência auditiva estão cada vez mais sofisticados, permitindo maior precisão. Este diagnóstico, embora de fundamental importância para o conhecimento da audição de cada paciente, precisa ser acompanhado por um trabalho terapêutico, com profissionais especializados e capacitados. Vários são os métodos utilizados para a reabilitação do deficiente auditivo, entre eles o oralismo, a comunicação total / bimodalismo e o bilingüismo, todos com objetivos e abordagens terapêuticas específicos. A finalidade deste artigo é apontar algumas características de cada método apresentado e chamar a atenção do profissional envolvido para a importância de uma postura e um posicionamento adequados diante dos pais.

UNITERMOS: Surdez–reabilitação

SUMMARY

Methods and equipment developed for diagnosing hearing impairment are obtaining an increasing degree of evolution that allows for more accuracy. But this diagnostic, though vital to the knowledge of the degree of impairment of each patient, must be combined with a therapeutical work done by specialized and competent professionals. There are several methods for the rehabilitation of hearing-impaired patients, e.g., oralism, total communication/bimodalism and bilingualism, and all of them present specific therapeutical goals and approaches. This paper aims to point to some characteristic features of each method considered as well as to call the attention of the professional to the importance of a good attitude and posture in the relationship with the hearing impaired patient’s relatives.

KEYWORDS: Hearing impairment–rehabilitation

Introdução

Muitos estudos e investimentos têm sido realizados na elaboração de procedimentos de identificação das deficiências auditivas. Os métodos e equipamentos para isso desenvolvidos estão cada vez mais sofisticados, permitindo maior precisão.

A identificação da deficiência auditiva, tanto na forma congênita como na forma precocemente adquirida, é apenas o início de uma longa caminhada a ser trilhada com a criança durante o processo terapêutico. Deve-se ressaltar que esse diagnóstico, embora de fundamental importância para o conhecimento da audição de cada um, isoladamente não fornecerá informações sobre o paciente, nem no que se refere a suas possibilidades de linguagem, nem quanto ao aproveitamento de sua audição residual, principalmente em crianças com perda severa e profunda.

As implicações da deficiência auditiva recaem sobre vários aspectos, tais como social, emocional, vocacional, da linguagem. Sem um trabalho de intervenção apropriado, as conseqüências da deficiência auditiva podem ser severas, desde a privação sensorial até o comprometimento do desenvolvimento da criança em geral.

O trabalho terapêutico requer profissionais especializados e capacitados, com conhecimento multidisciplinar, sensibilidade e flexibilidade para atender às diferentes necessidades de cada criança, da família, da escola e do contexto social. É fundamental uma visão compreensiva do problema para mostrar às famílias como as necessidades da deficiência auditiva podem ser encontradas e como devem ser atendidas, para que, a longo prazo, deste trabalho possa resultar um adulto independente e capaz de seguir o seu próprio caminho de vida (Bevilacqua e Formigoni, 1997).

O conhecimento de cada sujeito no decorrer do processo terapêutico apontará para suas possibilidades auditivas e de linguagem. O “olhar” do terapeuta para a relação da criança com o mundo que a cerca o levará à escolha do melhor caminho terapêutico.

Vários outros aspectos são também norteadores do trabalho terapêutico com a criança surda, como: o uso de aparelho de amplificação sonora individual desde o momento do diagnóstico, recurso fundamental para o aproveitamento da audição residual, a qual se constitui num aspecto facilitador importante para o desenvolvimento da linguagem oral; a atenção à família, considerando a quebra e os ajustes no padrão interacional a partir da descoberta da surdez da criança; o desenvolvimento da comunicação como meta a ser atingida (Balieiro, Pupo, Ficker, 1997).

Cabe ressaltar o fundamental trabalho de orientação e aconselhamento aos pais de criança deficiente auditiva, decisivo para o sucesso de qualquer proposta terapêutica. Bevilacqua (1985) se refere à família como o “agente modificador da realidade” das crianças, enquanto os terapeutas funcionam como “agentes de apoio”.

Luterman (1979) afirma que a família é a chave do sucesso para o trabalho terapêutico. Se os pais forem bem assessorados, por profissionais que saibam acolhe-los, ouvi-los, dar-lhes suporte, teremos então crianças mais felizes, com melhor prognóstico.

Em vista da importância do diagnóstico precoce e da necessidade da intervenção precoce, explanarei alguns métodos utilizados durante a reabilitação do deficiente auditivo.

Oralismo

A abordagem oralista tem como pressuposto que crianças com deficiência auditiva desenvolvam a língua oral como forma de comunicação.

Independente do método oral empregado (unissensorial ou acupédico / multissensorial / auraloral), o objetivo fundamental é levar a criança a construir e a usar a linguagem oral de forma eficiente, possibilitando sua interação com o meio social.

Para que essa abordagem alcance seu objetivo, são necessários um diagnóstico precoce, a adaptação imediata do aparelho de amplificação sonora individual ou implante coclear — para desenvolver assim as habilidades auditivas —, o início da reabilitação logo após o diagnóstico — com metas e objetivos a serem alcançados (planejamento) — e muita participação dos pais.

O objetivo maior da abordagem oralista está relacionado ao trabalho auditivo realizado. Esse trabalho ajuda a criança a “aprender a escutar”, fazendo com que passe pelas mesmas experiências auditivas de uma criança ouvinte. O trabalho deve ser desenvolvido de tal modo que a habilitação ou a reabilitação auditiva ocorra segundo uma seqüência gradativa de dificuldades (Bevilacqua e Formigoni, 1997).

Boothroyd (1982) aponta para as habilidades auditivas que devem ser desenvolvidas como base durante o trabalho terapêutico:

Detecção auditiva – a primeira habilidade a ser desenvolvida, na qual o indivíduo deve perceber a presença ou a ausência do som. O objetivo do desenvolvimento dessa habilidade é determinar se o aparelho está funcionando a contento e preparar a criança para os níveis mais refinados das habilidades auditivas.

Discriminação auditiva – a criança deve saber indicar se os sons são iguais ou diferentes. Com o desenvolvimento/aprendizado dessa habilidade, a criança terá condições de analisar as diferenças acústicas do mundo sonoro, tais como sons fortes e fracos, agudos e graves, contínuos e intermitentes.

Reconhecimento auditivo – habilidade de identificar o som e a fonte sonora, com capacidade de classificar e nomear o som ouvido, repetindo o estímulo e apontando a figura, a palavra ou a sentença correspondente ao estímulo.

Compreensão auditiva – habilidade para entender os estímulos sonoros apresentados, sem necessariamente repeti-los. Pressupõe que a criança entenda uma mensagem acústica, e que seja capaz de manter um diálogo de modo a compreender e a se fazer compreender.

Comunicação total / bimodalismo

A comunicação total surgiu na década de 1970, após estudos americanos a respeito do desenvolvimento de crianças surdas filhas de pais surdos. Ciccone (1996), define-a como tendo por objetivo uma maneira própria de entender o surdo e, a partir daí, pensar na organização de uma metodologia de trabalho que vise programas para seu atendimento e seu processo educacional.

Schindler (1988), definiu comunicação total não somente como uma metodologia, mas como uma filosofia que incorpora as formas de comunicação auditivas, manuais e orais apropriadas para assegurar uma comunicação efetiva com as pessoas surdas.

A filosofia da comunicação total propõe a exposição da criança ao maior número de informações possível (auditiva, oral, sinalizada, escrita etc.), para que ela se aproprie da que lhe for mais útil para seu desenvolvimento global (lingüístico, acadêmico, intelectual, social e emocional), sem qualquer valorização desta ou daquela forma, mas sim com a possibilidade de desenvolvimento pleno, de acordo com as possibilidades de cada criança (Harrison, Lodi, Moura, 1997).

A comunicação total postula uma valorização de abordagens alternativas que possam permitir ao surdo ser alguém, com quem se possa trocar idéias, sentimentos, informações, desde sua mais tenra idade.

O uso de sinais passou a ser utilizado apenas como apoio ao desenvolvimento da oralidade, descaracterizando as concepções originais dessa proposta, que se tornou uma técnica para facilitar o desenvolvimento da fala. A partir de então, passou a ser chamada de comunicação bimodal ou bimodalismo.

Bimodalismo é uma prática que se utiliza de sinais retirados da língua de sinais e da língua oral concomitantemente. A estrutura de língua apresentada às crianças é, portanto, a da língua oral. Nessa abordagem, acreditase na necessidade do uso de aparelho de amplificação sonora individual para aproveitamento dos resíduos auditivos, no desenvolvimento da leitura orofacial, juntamente com o uso da fala, dos sinais e do alfabeto digital (Harrison, Lodi, Moura, 1997).

Meadow (1987) observa que quando se pensa em crianças surdas, vindas de famílias em que a língua oral é a norma de comunicação eleita, uma das alternativas mais próprias de comunicação, com essas crianças e por parte delas, seria o bimodalismo, com a prática da língua oral e de sua forma manual (visual).

Neste método, o trabalho terapêutico pode ter duas visões:

a) Fazer com que o surdo desenvolva a oralidade, sendo a língua de sinais utilizada apenas como apoio. Tal como no oralismo, o treinamento auditivo e o desenvolvimento das habilidades auditivas são tarefas exigidas da criança.

b) Desenvolver a utilização da língua de sinais como comunicação principal para o surdo, sendo esta a base para o desenvolvimento da linguagem oral (quando possível).


Bilingüismo

O bilingüismo pressupõe o ensino de duas línguas para a criança. A primeira é a língua de sinais, que dará a base para a aprendizagem de uma segunda língua, que poderá ser a escrita ou a oral. O princípio fundamental do bilingüismo é oferecer à criança um ambiente lingüístico no qual seus interlocutores se comuniquem com ela de uma forma natural, da mesma forma que se faz com a criança ouvinte através da língua oral (Moura, Lodi, Harrinson, 1997).

Considerando que:

– A língua é um instrumento de vital importância para o desenvolvimento de certos processos cognitivos da criança e que há um tempo cronológico e psicológico ideal para que isto aconteça;

– A língua de sinais é uma língua como qualquer outra e não apenas gestos combinados;


– A língua de sinais é adquirida naturalmente pela criança surda;

– Uma postura que envolva o bilingüismo prioriza, evidentemente, o fato de que uma língua precisa ser de domínio do indivíduo para contribuir significativamente para seu desenvolvimento cognitivo e sua necessidade de comunicação com o meio. Assim, no bilingüismo, o indivíduo terá a língua de sinais como sua língua natural e, paralelamente, será exposto a um processo de aprendizagem da língua portuguesa (Fernandes, 1995).


Ser bilíngüe não é só conhecer palavras, estruturas de frases, enfim, a gramática das duas línguas, mas também conhecer, profundamente, as significações sociais e culturais das comunidades lingüísticas de que se faz parte. O bilingüismo só é possível associado, portanto, ao biculturalismo, isto é, à identificação e à convivência, de fato, com os grupos lingüísticos com que se mantém contato.

Neste método, o trabalho não está centrado no fonoaudiólogo, mas na forma educacional. Certamente, durante o desenvolvimento das habilidades auditivas e orais, o fonoaudiólogo deverá estar mais presente, mas durante o aprendizado da língua de sinais, com toda a sua estrutura gramatical, os fatores educacionais, sociais e culturais são mais relevantes.

Conclusão

A deficiência auditiva na infância é mais do que um diagnóstico médico, envolve questões educacionais, lingüísticas, sociais e emocionais decorrentes das limitações de comunicação existente com a sociedade.

Após a identificação precoce, a reabilitação da criança deficiente auditiva depende especialmente da dedicação da família e dos profissionais envolvidos, no sentido de desenvolver algum tipo de comunicação.

O trabalho terapêutico que o fonoaudiólogo irá desenvolver com uma criança deficiente auditiva vai refletir claramente a visão que esse profissional tem do indivíduo surdo. Tal trabalho pode partir do pressuposto de que o deficiente auditivo deve se integrar à sociedade ouvinte, situação em que o desenvolvimento da linguagem oral é a meta a ser alcançada; ou do pressuposto de que este indivíduo deve desenvolver uma comunicação gestual, através da língua de sinais, já que esta é a comunicação efetiva do surdo.

Para os pais e familiares de deficientes auditivos, há inúmeras questões relacionadas ao tipo de método utilizado: “meu filho irá falar?”, “irá freqüentar uma escola normal?”, “um dia ele vai deixar de usar aparelho auditivo?”, “e se ele só desenvolver o uso de sinais, como poderá fazer-se entender numa padaria, no jornaleiro etc?”. Neste momento, o fonoaudiólogo deve estar muito bem preparado para explicar toda a fundamentação do método que irá utilizar – e mostrar que nem sempre existem respostas imediatas, uma vez que cada criança apresentará um ritmo que será um dos pontos determinantes para seu desenvolvimento a partir do método utilizado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BALIEIRO, C. R.; PUPO, A. C.; FICKER, L. B. Deficiência auditiva: ênfase na reabilitação precoce. Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, v. 1, n. 2, p. 14-17, 1997.

BEVILACQUA, M. C. Compreensão de mães das orientações ministradas em um programa de audiologia voltado para a educação de crianças deficientes auditivas. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica, 1985. (Tese de Doutorado em Psicologia da Educação)

BEVILACQUA, M. C.; FORMIGONI, G. M. P. Audiologia educacional: uma opção terapêutica para a criança deficiente auditiva. São Paulo: Pró fono, 1997.

BOOTHROYD, A. Hearing impairments in children. New York: Prentice Hall, 1982.

CICCONE, M. Comunicação total – introdução – estratégias: a pessoa surda. Rio de Janeiro: Cultura Médica, 1996.

FERNANDES, E. Desenvolvimento lingüístico e cognitivo em casos de surdez — uma opção de educação com bilingüismo. In: STROBEL, K. L. Surdez: abordagem geral. Rio de Janeiro: FENEIS, 1995.

HARRISON, K. M. P.; LODI, A. C. B.; MOURA, M. C. Escolas e escolhas: processo educacional dos surdos. In: FILHO, O. L. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 1997.

LUTERMAN, D. M. Couseling parents os hearing-impaired children. USA: Little & Brown, 1979.

MEADOW, K. Kendall manual. Pre-College Programs. Washington D. C.: Gallaudet, College Press, 1987.

MOURA, M. C.; LODI, A. C. B.; HARRISON, K. M. P. História e educação: o surdo, a oralidade e o uso de sinais. In: FILHO, O. L. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 1997.

SCHINDLER, O. La comunicazione totale. In: ARLUNO, G. Handicappati e scuola. Torino: Edizione Omega Torino, 1988.

O MUNDO DA SAÚDE — São Paulo, ano 25 v. 25 n. 4 out./dez. 2001

 
 
 
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